Pretérito

Através de tudo que passaste

Há ainda o estio em teu coração

Com muitas promessas mal resolvidas

E versos babélicos.

Guarda teu paladar

Para amar o amanhã

E dizer adeus ao que te fez lúcida.

Talvez livre de paixões

Tu saberás que olhar para o pretérito

não fará de ti estentórico.

Mas promitente.

De palavras boas e saudáveis.

Da ausência desnivelada,

Mesmo assim atravessas as grandes ondas e segue seu caminho,

Despesa alguma machucará

E deixará teu caminho de conjetura.

Jamais a ti amado meu

Farei a saudade beliscar

A horrenda dor bazando,

Nem mesmo escrevendo como Pessoa.

Afeta

Se escondo palavras de amo-te

escondo te amo,

Se escondo palavras de saudade

A saudade não há

Se escondo versos

Demonstrações deletam-se.

Se escondo gostar

O gosto passa despercebido

Se escondo-me,

não me encontro.

Se não me deixo levar

Eu nunca fui.

Nunca te tive.

Se escondo afetos

Finjo afetar.

E afeta-me.

Apertura

Uma noite de tortura

Desequilíbrio

E ansiedade

Onde a dor grita silenciosamente

Segurando os sussurros ao desabafo

E respirando devagar com soluços aos prantos

Eu me digo, a ansiedade é minha amiga

E irmã da minha solidão

E quando madrugo,

É a única companhia aderente

E é vero nos meus versos.

Lágrimas

Gritos

Choro

Martírio.

Na minha poesia a ansiedade vira jogral.

É enfeitada,

Bonita de ser lida.

Mas aos que leem

E não me escutam,

Isso pode ser um pedido.

É apertura.

Neguinha

Mainha dizia a mim: minha doce nega, neguinha, sonhe, e não deixe teu medo te privar. Não deixa teu português ser mais importante que suas ideias, não deixa de ser dona de si. Mainha morreu, chorei, sofri, escrevi. Morreu por mim, chorou por mim, sofreu por mim, e hoje eu a escrevo. Mainha também era neguinha, neguinha demais. Tão neguinha que morreu por ser neguinha. Neguinha eu também sou, mas neguinha assim, não quero morrer. Por isso eu escrevo pouquinho, porque ainda tenho medo. De doce, como mainha dizia, não tenho mais nem nome. Meu português é até bonzinho. Sou dona de mim não. Mas o ruim é, que sou neguinha. Ainda sou muito neguinha.

Nicolly Primo

Consciência zebra?

Eu sei que as notas andam vazias assim como meu sossego de escrever- te, nego. Palavras soltas em macramé e digo certo que me amo, sim.

A pele da negra que acendeu junto ao fogo nos gambé. Até mais, veremos neles um doce refúgio de nos mandarem embora.

Açoite, congela teus dentes e friza teu cabelo no meio de uma multidão que te odeia. A apetência de dizer adeus para ti sem olhares.

Sossega meu nego, sossega minha Bahia. Que os reaças usam de nossa cultura, aplaudem nosso jazz e na favela desviam seus carros ou nos matam com suas palavras.

A parte de mim, que versa, versos, versátil, cantos, poesia. Desde negro, a neguinho. Desde morena, a mulata. A consciência pede respeito. A consciência não é mula. Não nula. Não zebra, é preta.

Nicolly primo

Teu acorde

Que mesmo em sede de verdades
E mentiras enrolados em teu beiço
Minha luz seja teu acorde
E que você toque seus mais gratos odes em meu corpo.

Ardiosos gritos
E suor de afago amoroso
Que completa-me nessa interação platônica

Refaça-me
Ame-me
Olharei em teus olhos com gestos sinuosos
E direcionarei lhe ao vento do meu ventre

Une existence manquée
Em nossa cama
E mesmo perdida
Encontrarei meu refúgio em versos teus.

Versos soltos

Eu queria ter o poder de mudar a estação quando as coisas desabam sobre mim.
Mas mudar a primavera ou verão não me faria menos infeliz.
Pois a arte da vida são os problemas. E até o anjo mais feliz do céu, já chorou hoje.